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domingo, 19 de junho de 2016

O que a Igreja pode oferecer aos homossexuais?

Eduardo Ribeiro Mundim


Esta não é uma questão de simples resposta, nem fácil. E esta resposta não é a resposta que busco; ainda é um rascunho, imperfeita, incongruente, em alguns momentos até mesmo hipócrita. Sua única defesa é ser honesta: para com a interpretação que faço da leitura das Escrituras e para com a realidade que bate a minha porta.

A razão da pergunta

Homossexualidade foi encarada como uma atitude de profunda imoralidade e rebelião contra Deus. No ocidente, é bem provável que a cultura judaico-cristã1 seja um dos responsáveis por esta visão. A pessoa que se definia como homossexual era vista, necessariamente, como moralmente má em sua natureza, de forma diferente das demais pessoas. Frequentemente a homossexualidade carrega a pecha, não dita diretamente mas claramente percebida nas entrelinhas, de “pecado imperdoável”.

Muito colaborou, nos últimos anos, para esta visão, o movimento político homossexual quando buscou, pela via legal, impor sua visão de normalidade a todos os aspectos da vida, privada e social, incluindo a criminalização de textos, laicos ou considerados sagrados por religiões estabelecidas, discordantes.

É justo reconhecer que este movimento político é o fruto extremado da crueldade com que os homossexuais foram tratados ao longo da história, seja pela sociedade civil, governo, diversas religiões, e cristãos de diversas denominações2. É justo reconhecer que, enquanto Igreja, pecamos em diversos momentos contra estas pessoas, protegidos de sentimento de culpa por supostas boas intenções e “amor ao pecador, mas odiar o pecado”.

À parte desta movimentação política, conhecemos cristãos sinceros, em tudo semelhantes a nós mesmos, indistinguíveis em suas atitudes, discursos e manifestação de fé autêntica, que assumem, por livre decisão, serem homossexuais. A única diferença que passa a existir entre “eles e eu”, entre “eles e nós”.

Esta descoberta choca por chacoalhar todo um entendimento sobre o assunto. Entendimento este que deve ser escrutinado em busca de preconceitos infundados, preocupação com a ortodoxia com o sacrifício da pessoa e completa harmonização com toda a revelação contida nas Escrituras.

A pergunta insistente é: pode um homossexual ser verdadeiramente um cristão e permanecer homossexual? Quem são estas pessoas a quem chamamos irmãos(ãs) supondo serem heterossexuais e que tememos chamar irmãos(ãs) ao sabê-lo(a)s homossexuais?


O que torna esta questão diferente

Deus, enquanto Criador, tinha um propósito para sua criação, desvirtuado pelo pecado. Desde então, todas as nossas esferas de vida estão imersas em uma dupla condição: mantendo a intenção original do Criador, mas alterada pelo nosso pecado. E isto inclui a sexualidade.

Até o presente momento, sou obrigado a concordar com a expressão “é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que encontrar respaldo bíblico para o homossexualismo”3.

Sendo assim, a homossexualidade não está de acordo com o planejado pelo Criador, mas é uma realidade. E sexualidade é uma característica intrinsecamente humana, que nos define ao longo de nossa vida, organiza nossos relacionamentos interpessoais e marca, de forma consciente e inconsciente, nossa estrutura psíquica.

Aceito como verdadeira a afirmativa de que homossexualidade não é uma questão de escolha consciente: ela acontece. Aceito-a porque, até onde seja do meu conhecimento, ninguém provou o contrário. Muito antes, as explicações sobre a hetero e homossexualidade passam por mecanismos subliminares e inconscientes.

E na definição da sexualidade (ou seria genitalidade?) existe uma exceção4 que me paralisa e faz perguntar se as coisas são tão simples como alguns querem fazer crer. Existe um grupo de pessoas, afetadas por diversas alterações nos seus organismos, que não apresentam o sexo genético igual ao corpóreo. Como exemplo, são geneticamente homens (os cromossomos sexuais são XY) mas externamente são mulheres como todas as outras. Frequentemente esta condição é descoberta a partir da adolescência, podendo não sê-lo até a pessoa afetada procurar explicação na sua dificuldade em engravidar. Seria este um casamento homossexual (pois teríamos um homem na aparência e na genética casado com outro homem genético mas de aparência e criação e atitudes e psiquismo e... feminino).

Não estou procurando a proteção da exceção – mas se este casal fosse membro de nossa igreja, como aconselhá-lo se eles fizessem esta pergunta???

Estou usando este exemplo para dizer que a definição da sexualidade é algo muito mais complicado do que pensamos. Que há situações, como esta, não previstas, até prova em contrário, nas Sagradas Escrituras.

Passo para outro exemplo que me incomoda. Obesidade é um problema de saúde pública e é resultado, única e exclusivamente, de uma ingesta calórica superior ao gasto. Quantos obesos que conhecemos que simplesmente não conseguem reduzir e balancear a equação (incluindo alguns que foram operados e não deram certo)? Mas alimentação é outro aspecto de nossas vidas conscientes marcadas por eventos subliminares, culturais e inconscientes5.

A realidade que me bate à porta é que, ainda que haja diversas pessoas “ex-homossexuais”6, talvez esta não seja a regra, da mesma forma como não é possível a todos os obesos se tornarem “ex-obesos”.


As bases da proposta

O chamado do Evangelho é para que aceitemos o perdão dado pela morte de Cristo na cruz e a nova vida, agora e na eternidade, garantidas pela Sua ressurreição. A segunda parte é consequência da primeira, e não o contrário.

A convicção do pecado é algo pessoal e intransferível, assim como a certeza do Seu perdão. Cada pessoa tem sua própria história, consciente e inconsciente, e esta vai definir os pecados ocorridos, sejam acidentais, sejam voluntários.

A santificação é mandamento (Hb 12.14), é para ser buscada voluntária e ativamente(II Co 7.1), sob a direção do Espírito Santo, através de uma vida devocional individual e comunitária. A agenda de santificação de cada cristão é ditada pelo Espírito Santo tendo como base sua história pessoal.

Atitudes corretas não refletem,necessariamente, coração correto, como nos ensina o Sermão da Montanha em diversos momentos.

E cada um de nós sabe as lutas que tem com suas dificuldades pessoais, que se apresentam continuamente como um pecado à nossa frente, como diz Davi: “o meu pecado está sempre diante de mim”.

Pouco provável a santificação 100% nesta vida – e somente posso crer nisto levando em conta a morada na Nova Jerusalém, não antes.


A proposta

1. a Igreja é um braço do Senhor Jesus no mundo, que a todos chama ao arrependimento, à conversão, à nova vida, sem distinção de nenhuma espécie, a começar do “tamanho do pecado”. Raça, cor, sexo, religião, opção política, opção sexual, profissão, e qualquer outro critério de classificação ou divisão, não são excluídos da mensagem de amor. Portanto, a igreja deve estar aberta (e por que não deveria buscar ativamente?) aos modernos cobradores de impostos, as Madalenas contemporâneas (e não só as mais bem situadas financeiramente com roupas de grife e atendimento personalizado), aos atuais jovens ricos enamorados por si mesmos, aos indigentes vítimas do sistema iníquo, às boas pessoas que, apesar de boas, descobrem-se tremendamente pecadoras na presença dEle. E isto inclui os homossexuais masculinos e femininos, travestis, transgêneros e semelhantes.

2. as pessoas que, através de uma igreja local, têm um encontro pessoal com o Ressuscitado, devem encontrar nela todos os recursos necessários ao seu crescimento e amadurecimento na fé.

3. a sexualidade é uma questão sensível para todos, com forte conteúdo emocional inconsciente – e, portanto, perigoso. Os homoafetivos devem ser acolhidos com o mesmo amor com que são os heteroafetivos – qual a razão para a diferença? Estejam acompanhados ou não por parceiros (as). Por uma questão de integridade por parte da liderança da comunidade, as dificuldades inerentes à homoafetividade precisam ser, de modo terapêutico e cuidadoso, pontuadas. A questão ainda está em aberto, havendo dificuldades extras para os cristãos nesta situação. À medida que lhes for possível, o “amor reverso” também precisa ser exercido. Ou seja, em consideração à comunidade, procurar não escandalizá-la futilmente.

4. o cuidado pastoral por parte de todos, mas em especial dos pastores e demais oficiais da igreja local, deve ser ativamente buscado e situações constrangedoras através do púlpito ou doutras circunstâncias litúrgicas ou da escola bíblica dominical, evitadas. O que não deve ser entendido como censura prévia, mas como um lembrete para não cair na armadilha fácil de hierarquização de pecados e no farisaísmo.

5. pelas luzes teológicas e bíblicas até este momento, o ideal seria o não exercício da genitalidade7 - assim como para os heteroafetivos a relação sexual deveria ser restrita ao matrimônio. Contudo, não sendo esta a realidade de quem chega à igreja local, ou de quem já congregando entende ter encontrado o(a) parceiro(a) para dividir sua caminhada pessoal, por analogia o exercício da genitalidade deveria ser restrito à existência de um contrato de união estável na forma da lei, com a mesma solicitação de fidelidade mútua, exigida pelas Escrituras.

6. pelo princípio do “amor reverso”, o(a) irmão(ã) que aspira aos ofícios de oficiais da igreja local sendo homoafetivo deveria discutir, em amor, com os pastores e demais lideranças, seu chamado, e as implicações institucionais decorrentes – entre elas, a expectativa institucional da renúncia à genitalidade, até que ocorra (se ocorrer), alguma modificação.

7. deve ser amorosamente explícito que a homossexualidade enquanto ideologia não encontra guarida nem respaldo na igreja cristã, por não haver possibilidade de harmonização com os ensinos das Escrituras. Discussão de igualdade de direitos civis é absolutamente legítima, mas apoio às “paradas do orgulho gay” não.


1Vou me permitir separar cultura judaico-cristã de teologia cristã, e mesmo de fé cristã autêntica.
2Testemunho disponível, por exemplo, no vídeo em http://www.youtube.com/watch?v=M9QHrtMLRWo
7Defendido pelo Caio Fábio, https://www.youtube.com/watch?v=Q-FWxg3v8cU

publicado a primeira vez em 12/08/12 

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Obesidade e homossexualidade

Eduardo Ribeiro Mundim

A Ultimato decidiu publicar, na seção das cartas, no primeiro número de 2012, o comentário que fiz daquela escrita pelo irmão Luciano, originalmente postado no sítio da revista e no CrerPensar. Acrescentou suas próprias considerações, úteis ao debate. A decisão de registrar na versão impressa o postado na virtual mostra, mais uma vez, a postura de coragem da equipe editorial. Mais fácil teria sido deixar passar e não colocar "mais lenha na fogueira". As ponderações que fez contribuem e convidam ao aprofundamento da reflexão.

É verdade que Jesus chama ao arrependimento e à mudança de vida; é verdade que Ele chama por demonstrações objetivas deste arrependimento e estabelece critérios claros do que seja a novidade de vida que espera daqueles que O confessam Senhor e Salvador.

É verdade que pela Sua morte e ressurreição o pecado não mais dita o destino do Seu povo. É verdade que nesta vida continuaremos a pecar e a confessar - se dissermos não estarmos sujeitos a isto, "fazemo-Lo mentiroso e o Seu amor não permanece em nós".

É certo que os Seus discípulos devem buscar conscientemente a Sua semelhança, o que é chamado por alguns de santificação. Buscá-la com afinco. Não é prudente contar este processo como possível de ser alcançado nesta vida com plenitude, pelo exposto anteriormente.

Segundo Paulo aqueles que cometem adultério, prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices e glutonarias não herdarão o Reino de Deus (habitualmente interpretado como "não serão salvos"). A coerência pede que o apóstolo seja entendido dizendo que estão fora do Reino aqueles que recusam a alternativa de abandonarem um caminho de rebelião aberta contra Deus Pai, manifestada pelas atitudes permanentes, talvez definidoras do caráter da pessoas, exemplificadas de; forma não exaustiva por essa lista. Ela é encerrada pela expressão "e coisas semelhantes a estas".

Glutonarias é, no grego, kômoi. Este termo aparece apenas 3 vezes no Novo Testamento(1) e não é estudado em obras de referência(2). Também é traduzido por “orgias”. Segundo o Houaiss, orgia era uma festividade em honra ao deus Baco, e passou a ter o significado de festa caracterizada pela ausência de limites, pelo excesso, seja no beber, no comer ou na atividade sexual. Glutonaria é o ato de comer em excesso. A qual dos dois significados o apóstolo se referia?

Potencialmente ambos estariam no contexto. Orgia abrangeria pelo menos os 5 primeiros frutos da carne citados e o último; glutonaria seria o termo esperado após bebedices, e estaria também incluído em orgia. O comentário de Calvino parece favorecer glutonaria(3).

Todos os excessos resumidos em orgia são cometidos na esfera privada e, na dependência da circunspecção dos envolvidos, permanecem ocultos – à exceção provável de bebedices (se pensarmos no comportamento do alcoolista como exemplo) e da glutonaria, evidenciado pelo excesso de peso, caso seja um comportamento diário.

Não é possível a obesidade na ausência do consumo excessivo de nutrientes.

Estariam os obesos incluídos na relação dos frutos da carne? Se a obesidade somente pode ser consequente ao excesso de nutrientes, por que herdariam eles o Reino de Deus?

Enquanto escrevo, não consigo evitar a sensação de estar sendo ridículo. Contudo, racionalmente falando, a questão permanece, seja risível ou não: diversos comportamentos são evidências de um ser não transformado pela graça divina, em um espectro que vai da condenação social unânime (homicídios) ao risível (obesidade), passando pelo socialmente tolerável dentro de limites elásticos (inveja e inimizades).

É premissa cristã, e fortemente evangélica, a inexistência de pecado que não separe o ser humano de Deus – todo e qualquer pecado, tenha o impacto social ou particular que for, faz separação intransponível entre ambos. A única possibilidade de ponte é a cruz de Cristo.

Homossexualidade e obesidade parecem, portanto, estarem no mesmo barco: não entrarão no Reino de Deus.

É isto mesmo?
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(1) Concordância Fiel do Novo Testamento, vol I, pag 2968, 1a ed
(2) O Novo Dicionário da Bíblia 3a ed, Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã 1a ed, Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento 1a ed
(3) conferir em http://www.ccel.org/ccel/calvin/calcom41.iii.vii.iv.html

publicado originalmente em 11/01/12, no crerpensar.blogspot.com

terça-feira, 12 de abril de 2016

"E sereis minhas testemunhas"

Eduardo Ribeiro Mundim
Escrito em 13/05/99

         Esse mandamento, um dos últimos que Jesus nos deixou, é tido por muitos como o mais importante, estando sempre agregado ao "ide por todo o mundo". Testemunhar, pois, sempre foi uma preocupação do povo chamado evangélico. E essa noção é sempre ressaltada, tanto a nível da escola bíblica dominical quanto a nível do púlpito. Talvez como consequência da esperada conversão, não apenas das ideias, mas das atitudes (a vida do cristão passa a ter um novo referencial ético), e também com a necessidade sentida de fazer-se ímpar frente à sociedade pagã, somos conhecidos, em alguns lugares, pela negativa: crentes são aqueles que NÃO dançam, NÃO fumam, NÃO bebem...

         Mas o que é testemunhar?

         O que temos a testemunhar?

         O Aurélio nos ensina que testemunhar pode ser tanto intransitivo, quanto transitivo direto e/ou indireto. Em todas as regências, alguém testemunha quando declara, ou depõe em um tribunal, fatos que conhece, seja pelo ouvir ou pelo ver. No primeiro caso, ela é dita "auricular"; no segundo, ocular. Como exigência formal em alguns procedimentos legais, alguém pode ser convocado, chamado, para validar certo ato, que somente será válido juridicamente porque foi assistido por outra pessoa; é a testemunha instrumentária. Quem presta depoimento, testemunha sobre aquilo que sabe por conhecimento próprio, ou advindo de terceiros, mas, fundamentalmente, fala daquilo que tem por verdade, segundo sua capacidade interpretativa.

         O ministério de Jesus foi bem planejado. Não só seu final, voluntário e não obra do acaso, mas todo o seu desenrolar. Cristo selecionou e reuniu junto a si um grupo de homens, a fim de que fossem instrumentos, testemunhas instrumentárias do que Ele faria/não faria, ensinaria/ordenaria. Não que Seu ensino dependesse da autenticação do grupo. Mas a Sua existência, origem e trabalho históricos necessitavam ser autenticados pelo depoimento de quem havia participado diariamente, intensamente, dos Seus últimos três anos de vida terrena . E que grupo! Um coletor de impostos (e todos duvidavam da honestidade dos publicanos), um ladrão com vocação terrorista (que se tornou traidor), dois irmãos "capitalistas" que exploravam uma empresa pesqueira (seriam eles pobres como sempre imaginamos?)... Jesus tinha uma maneira bem peculiar de acercar-se de pessoas contrastantes, sem fazer distinção entre elas. Um círculo menos íntimo também foi chamado a ser depoente, constituído por mulheres (algumas prostitutas inclusive; ou, ex-prostitutas), outros funcionários da burocracia romana e os mais variados tipos de pecadores confessos, bem como algumas autoridades religiosas judaicas.

         Aos apóstolos cabia testificar, comprovar, assegurar:
1.   que aquele Jesus, filho de José e Maria, descendente de Davi, da antiga tribo de Judá, era o Messias, aquele que havia de vir, como predito pelos profetas:
      "Um ramo sairá do tronco de Jessé, um rebento brotará de suas raízes.
      Sobre ele repousará o Espírito de Iahweh, espírito de sabedoria e de inteligência, espírito de conselho e fortaleza, espírito de conhecimento e de temor de Iahweh: no temor de Iahweh estará a sua inspiração.
      Ele não julgará segundo a aparência.
      Ele não dará sentença apenas por ouvir dizer.
      Antes, julgará os fracos com justiça,
com equidade pronunciará uma sentença.
      Ele ferirá a terra com o bastão da sua boca
e com o sopro dos seus lábios matará o ímpio.
      A justiça será o cinto dos seus lombos
e a fidelidade, o cinto dos seus rins"
(Is 11.1-5)

2.   que a Sua morte não fora obra das forças políticas, mas deliberadamente planejada e executada, como Ele advertira os incrédulos apóstolos em Lc 18.31-33:
      "...Eis que estamos subindo a Jerusalém e vai cumprir-se tudo o que foi escrito pelos Profetas a respeito do Filho do Homem. De fato, ele será entregue aos gentios, escarnecido, ultrajado, coberto de escarros; depois de o açoitar, eles o matarão".

Também todo o sucedido fora anunciado pelo menos 500 anos antes, como está escrito em Is 53:
      "Mas Iahweh quis feri-lo, submetê-lo a enfermidade." (v 9)
      "Foi maltratado, mas livremente humilhou-se e não abriu a boca...
      Após detenção e julgamento, foi preso."
(V 7,8)

3.   que Sua morte e ressurreição cumpriam um plano urdido por Deus Pai desde a fundação do mundo, tendo ambas um significado único na história da humanidade. No mesmo "IV canto do servo", em Isaías, lemos
      "E no entanto, eram as nossas enfermidades que ele levava sobre si,
as nossas dores que ele carregava...
      Mas ele foi trespassado por causa das nossas transgressões,
esmago em virtude das nossas iniquidades;
o castigo que havia de trazer-nos a paz, caiu sobre ele,
sim, pelas suas pisaduras fomos curados."
(v  4,5)

e o apóstolo Pedro, no discurso no dia de pentecostes, afirma:
      "Davi... sendo, pois, profeta,... previu e anunciou a ressurreição de Cristo... A esse Jesus Deus o ressuscitou, e disto nós todos somos testemunhas... Saiba, portanto, com certeza, toda a casa de Israel: Deus o constituiu Senhor e Cristo, esse Jesus a quem vós crucificastes" (At 2.29-36)

Paulo, escrevendo à igreja que estava em Corinto, por ele iniciada, alerta:
      "E, se Cristo não ressuscitou, ilusória é a vossa fé; ainda estais nos vossos pecados... Se temos esperança em Cristo tão-somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens." (I Co 15.17-19)

         Enquanto Igreja, somos constituídos sobre o fundamento lançado por Cristo Jesus e seus apóstolos. Temos acesso a Deus pelo sangue da cruz, e vida eterna pela Sua ressurreição. Este é o testemunho básico que eles nos deixaram, por conhecê-lo em primeira mão, e não por ouvir falar. E todo o restante dos cristãos testemunham essa mesma verdade, após tê-la experienciado pessoalmente, de modo íntimo e único (assim como cada ser humano é único em si mesmo), como relatado na carta de Paulo aos romanos: "o próprio Espírito (de Deus) se une ao nosso espírito para testemunhar que somos filhos de Deus" (Rm 8.16). Nosso testemunho é, a rigor, de segunda mão. Mas isso de modo algum lhe tira o valor, pois Jesus já nos autorizou a dá-lo, quando disse a Tomé: "Porque viste, creste. Felizes os que não viram e creram!" (Jo 20.29)

         Nos nossos dias é muito popular testemunhar sobre o que Deus tem feito nas nossas vidas. Habitualmente, tal depoimento diz respeito à saúde orgânica/psicológica ou financeira. Ainda que tenha seu valor, não é esse relato para o  qual fomos comissionados; relatos subjetivos, emotivos, muitas vezes bonitos, que carregam em si o vírus de atrair pelos benefícios, e não pela verdade dos fatos. E o próprio Senhor se irritou com esse tipo de atitude, como narra João: "em verdade, em verdade, vos digo: vós me procurais, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos saciastes" (Jo 6.26). Se a nossa declaração se resume nas maravilhas e nos "lucros" que a conversão pode significar, traímos o verdadeiro sentido do Evangelho, ou seja:

                   1)"Não há homem justo,
                        não há um sequer,
                  não há quem entenda,
                  não há quem busque a Deus.
                  Todos se transviaram,
                  todos juntos se corromperam;
                  não há quem faça o bem,
                  não há um sequer." (Rm 3.10-12)

                   2)"Nisto consiste o amor:
                  não fomos nós que amamos a Deus,
                  mas foi Ele quem nos amou
                  e enviou-nos o Seu Filho
                  como vítima de expiação pelos nossos pecados" (I Jo 4.10)

                  3)"Tendo sido, pois, justificados pela fé, estamos em paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo" (Rm 5.1) e "Portanto, não existe mais condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus" (Rm 8.1)

         O Evangelho não é um apelo ao nosso conhecimento dito científico. Portanto, Deus e Cristo não precisam provar nada. É um apelo aos nossos sentimentos mais interiores, de natureza puramente "filosófica": ou nos consideramos afastados de Deus ou não; ou aceitamos a morte substitutiva de Cristo na cruz, ou não. Mas não solicitemos provas, pois o apóstolo já nos advertiu: "Deus não tornou louca a sabedoria deste século? Com efeito, visto que o mundo por meio da sabedoria não reconheceu a Deus na sabedoria de Deus, aprouve a Deus pela loucura da pregação salvar aqueles que crêem. Os judeus pedem sinais, e os gregos andam em busca de sabedoria; nós, porém, anunciamos Cristo crucificado, que para os judeus é escândalo, para os gentios é loucura, mas para aqueles que são chamados, tantos judeus quanto gregos, é Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus" (I Co 1.21-23).


publicação original, 16/09/08, em http://crerpensar.blogspot.com.br/2008/09/e-sereis-minhas-testemunhas.html 

domingo, 10 de abril de 2016

A oração não respondida

(Tg 4.1-10)

Escrito em 16/03/99

         Não importando o seu credo, todo ser humano que se confessa religioso usa, de alguma forma e em alguma rotina (em situações ordinárias ou extraordinárias), uma prática que se pode denominar genericamente de oração. Na fé cristã, não se imagina o crescimento espiritual (ou seja, o assemelhar-se gradativamente a Jesus) sem a oração. Nas confissões não cristãs, esse objetivo já não existe (pois Cristo não é o seu centro), ainda que possa existir um semelhante (o fiel deseja tornar-se como imagina que seu deus seja).

         Jesus sempre exigiu que seus seguidores orassem. Diversas instâncias do seu ministério foram registradas para que soubéssemos, hoje, a importância e o lugar dessa prática. Lembrando alguns:
1.   certos feitos somente são alcançados com muita oração e jejum (Mt 17.14-20)
2.   há certa atitudes aceitáveis no orar (Mt 6.5-8)
3.   há um modelo de oração (Mt 6.9-15)
4.   orar em circunstâncias de grande tensão/angústia ou de dramas pessoais (Mc 14.32-42)
5.   Deus ouve as orações (Mt 7.7-11)
6.   Deus ouve as orações realizadas no Nome de Jesus (Jo 14.13-14)

         Tomando a prece sacerdotal em Jo 17, sem dúvida a maior oração do Senhor registrada, pode-se afirmar que a oração cristã é, sobretudo, um diálogo. Um diálogo estranho, é certo, pois um lado não usa, necessariamente, a mesma linguagem que nós; um diálogo de uma vida inteira, se lembrarmos quantas e quantas vezes os Evangelhos dizem "e se retirou para orar". A prece cristã não é, em nenhuma hipótese:
*      uma troca, para se conseguir o que se deseja
*      uma chantagem, para se obter um fim planejado
*      uma manipulação, para se controlar o mundo em volta

         Uma das regras hermenêuticas diz que uma doutrina bíblica não pode ser firmada com o uso de um único texto, sem apoio doutras partes das Escrituras. Um versículo (e o termo quer dizer pequeno verso) que lembramos frequentemente, e fora de contexto, é Lc 11.9: "... pedi e dar-se-vos-á...". Quem sabe Tiago tinha em mente essa lição de Seu irmão quando escreveu sua carta aos judeus cristãos dispersos no seu tempo...

         Faz parte de nossa humanidade caída (e teremos de conviver com isto por toda nossa vida até a única morte que sofreremos) desejos profundamente arraigados no nosso ser, que contrariam os propósitos e desejos do Pai. Tão perigosos que nosso aparelho psíquico os guarda em locais secretos, pois tememos, muitas vezes, as consequências de cedermos a eles. Tão atraentes que em muitas ocasiões os acalentamos, secretamente. Tão poderosos que apesar de serem trancafiados no nosso porão psíquico sua influência se faz sentir nas nossas atitudes, muitas vezes sem que nos apercebamos do fato.

         A psicologia e a psicanálise esclareceram essa dinâmica, que os autores sagrados conheciam, e nomeavam de modo diverso. Para eles, a questão era "pois a carne tem aspirações contrárias ao espírito e o espírito contrárias à carne. Eles se opõe reciprocamente, de sorte que não fazeis o que quereis" (Gl 5.17). Para as ciências psicológicas atuais, o "fundo do nosso coração" é chamado de "inconsciente", onde guardamos nossa memória. Há fragmentos que, por serem dolorosos/traumatizantes, são guardados "a sete chaves" (o termo técnico é "são recalcados"). Esse recalcado, por ser poderoso e/ou atraente, pode retornar disfarçado, através de sonhos, pensamentos, palavras ou atos.

         Nossa conversão, em hipótese nenhuma, anula essa característica humana. Ela nos dá a chance de modificá-la ou de lidar com ela partindo de novas premissas.

         "Pedi e dar-se-vos-á", e Tiago alerta "pedis, mas não recebeis, porque pedis mal, com o fim de gastardes nos vossos prazeres", pois "cobiçais e não tendes? Então matais. Buscais com avidez, mas não conseguis obter? Então vos entregais à luta e à guerra" (e Tiago estava falando a cristãos antes do ano 62 a.C...) Usando a gíria profissional, as orações em foco são feitas visando a satisfação pessoal moralmente inadequada (moral do ponto de vista da Revelação, não da sociedade) pois o fruto desse desejo é chamado de "amigo do mundo" e, portanto, "inimigo de Deus". O desejo é tão forte que Tiago usa expressões pesadas: "litigais e fazeis guerra" (em outra versão). É quase como se dissesse "matais para tentar obter o que desejais".

         O contraste com o Pai Nosso, a oração modelo, é gritante. Nela somos ensinados a pedir, por ordem hierárquica:
1.   que todos reconheçam a santidade de Deus (v. 9)
2.   que o Reino dEle se instaure na Terra (v. 10a)
3.   que a vontade dEle seja realizada em todo o mundo criado (v. 10b)
4.   que tenhamos o necessário para viver hoje (v. 11)
5.   que nossos pecados sejam perdoados condicionalmente (v. 12)
6.   que fiquemos afastados das situações difíceis e de todo mal (v. 13)

         Paulo lembra que "(a caridade) não procura o seu próprio interesse" (I Co 13.5). Por isso, Jesus não recrimina quando alguém solicita um milagre de cura para os outros (Mc 6.53-56), nem para si (Mc 10.46-52), mas rechaça a oração de Tiago e do "discípulo amado", que buscavam honras e glórias para si (Mc 10.35-45).

         O que nos motiva a orar?

         O que pedimos?

         Por que pedimos?

         O que podemos aprender sobre nós mesmos a partir de nossas orações e das respostas que temos?

         Devemos ser críticos severos de nós mesmos, pois, em última análise, não temos nada a perder. Ou melhor, o que temos de perder é lucro: nossa autoimagem inflacionada na presença do nosso próximo e de Deus. Além do mais, temos a promessa de que "se confessarmos os nossos pecados, ele, que é fiel e justo, perdoará nossos pecados e nos purificará de toda injustiça" (I Jo 1.9).
*      Quando oramos pela salvação de alguém, é por esse alguém ou é por nós? Que motivação egoísta pode (não significa que exista uma) estar nos movendo?
*      Quando intercedemos pelos governantes pensamos nos benefícios que um governo justo traz a toda sociedade ou apenas esperamos obter benefícios?
*      Quando pedimos pela saúde do nosso próximo é nele que pensamos ou na oportunidade de mostrarmos "como nosso deus é poderoso"?
*      Quando rogamos alguma coisa não será por preguiça de correr atrás dela?

         Contudo, nossa natureza é complexa o suficiente para termos, dentro de nós mesmos, desejos/sonhos ambíguos e contraditórios. Boas intenções estão, frequentemente, maculadas por egoísmo. Acredito que devemos orar e discernir bem os propósitos do nosso coração, e aproveitar a oportunidade de expô-los ao Pai, como parte do nosso processo de santificação e crescimento espiritual.

         Longe de qualquer um de nós nos constituirmos juízes da oração alheia. Sejamos, unicamente, juízes de nós mesmos e oremos: "Senhor, ensina-nos a orar".



sábado, 9 de abril de 2016

A Parábola do Filho

(Mt 7.11)

Eduardo Ribeiro Mundim

Escrito em 15/03/99

            Jesus sempre teve um cuidado e um carinho especial para com as crianças. Todos que são familiarizados com as Sagradas Escrituras conhecem os textos como Mt 19.13-15: "deixai as crianças e não as impeçais de virem a mim, pois delas é o Reino dos Céus". Frequentemente Jesus as usava como parábola. Por exemplo, na situação desagradável causada pelos doze, quando discutiam sobre quem seria o maior no Reino dos Céus: "Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus" (Mt 18.3). E no texto em foco, o exemplo é retirado do dia a dia ordinário: "Quem dentre vós dará uma pedra a seu filho, se este lhe pedir pão? Ou lhe dará uma cobra, se este lhe pedir peixe? Ora, se vós que sois maus sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está nos céus dará coisas boas aos que lhe pedem!"

            Um dos modos de definirmos Deus (e enquanto seres humanos necessitamos de conceitos, sejam eles claramente formulados ou não) é através de Seus atributos: amor, justiça, bondade, misericórdia, etc. E sem dúvida, temos uma dificuldade muito grande em lidarmos com os aspectos contrastantes: amor e justiça. A dificuldade é evidente nas nossas dicotomias: intelectualmente, O reconhecemos como Pai amoroso, mas no nosso coração predomina aquela figura de um quadro muito famoso, onde a Trindade é representada por um olho que tudo vê (e pune). Nossa boca confessa o perdão que a morte e a ressurreição trouxeram, mas nossas atitudes demonstram a pouca confiança que temos nele. Constantemente nosso lado mórbido é chamado a expressar-se.

            Temos pouca tolerância com nossos erros e pecados. Erroneamente o chamado para sermos santos "como Deus é Santo" é compreendido, na prática, como uma proibição de falhar. E qualquer falha como um desastre, cujas proporções são ditadas mais pelo nosso sentimento de culpa patológico que por uma avaliação honesta do significado dela em nossa vida e em confronto com as Escrituras.

            A partir do momento que me tornei pai comecei a ter experiências únicas, difíceis de descrever, tanto objetivamente como subjetivamente. Aqueles que têm a mesma experiência (incluindo as mães) as reconhecerão com facilidade. Penso naquela fase onde a linguagem está começando a se desenvolver, e portanto, o raciocínio está iniciando sua complexidade. Um dos meus prazeres na paternidade é ver meu filho de 2-3 anos crescer e se desenvolver; adquirir novas habilidades; dar gritos de alegria quando consegue vencer algum obstáculo. Meu coração se enche de ternura quando ele se aborrece por não conseguir alguma coisa que arduamente tenta e não consigo me irritar por demonstrar inumeráveis vezes o que deve e o que não deve ser feito.

            Determinado dia, flagrei a mim mesmo pensando que, na verdade, Deus deve agir conosco do mesmo modo com agimos com nossos filhos nessa idade. A diferença entre eles e nós é óbvia; nossa estatura, física, intelectual e emocional é bem "superior". Parece existir uma grande distância entre nós. Talvez seja óbvio que é uma distância bem menor que o abismo que nos separa do Pai: "Com efeito, os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e os vossos caminhos não são os meus caminhos, oráculo de Iahweh. Quanto os céus estão acima da terra, tanto os meus caminhos estão acima dos vossos caminhos, e os meus pensamentos acima dos vossos pensamentos"(Is 55.8,9). Mas o fato é que a distância, para nossos filhos, é intransponível, nesse momento, tão intransponível quanto a nossa distância para o Pai. É claro que o tempo e uma educação adequada a farão diminuir, mas, mesmo assim, ela sempre existirá, com cores e ênfases diferentes. Em relação a Deus, é óbvio, nosso progresso é e sempre será infinitamente menor.

            Ora, se nós, com nossas imperfeições, nosso cansaço e nossa frustração diária sabemos nos comportar assim quanto mais nosso Pai Celeste? Não seremos nós juízes severos demais de nós mesmos? Quantos dos nossos pecados não serão tão graves quanto a dificuldade das crianças em permanecer em pé enquanto tomam banho sobre um piso escorregadio? Quantos dos nossos erros não serão simples e inocentes travessuras?

            Não estou afirmando que Deus não é justiça e que não há punição para erros (e, habitualmente, elas são mais consequências naturais das nossas escolhas que uma ação direta, pessoal, única, a nós dirigida). Mas questiono o rosto por demais severo de Deus que muitos de nós temos cultivado e transmitido a nossos conhecidos e pior, a nossos filhos. Muitos de nós, devido as nossas características mórbidas pessoais preferimos ouvir falar sobre o juízo que sobre o perdão, sobre o castigo que sobre o abraço amoroso. Desequilibradamente enfatizamos mais o versículo "sou um Deus ciumento, que puno a iniquidade dos pais sobre os filhos até a terceira e quarta geração dos que me odeiam" e não nos deixamos penetrar, até o fundo de nossa alma doentia, pelo seu complemento "mas que também ajo com amor até a milésima geração para aqueles que me amam e guardam os meus mandamentos" (Ex 20.5,6).

publicação original, 04/09/08, http://crerpensar.blogspot.com.br/2008/09/parbola-do-filho.html

sexta-feira, 8 de abril de 2016

“Mane, Mane, Tecel, Parsin”


(Dn 6)
 Eduardo Ribeiro Mundim

            Esta é uma história conhecida, e trágica. Trágica porque fala de fracasso, julgamento, ruína e morte. É uma história, desde o início, pessimista, onde apenas aspectos e fatos negativos são claramente visíveis.

            Também é uma história que traz suas perguntas. Se a própria historicidade do livro de Daniel é colocada em dúvida por alguns, que diriam deste capítulo? Objeções históricas há, mas nada que não possa ser contornado: por que Baltazar chama a Nabucodonozor pai, se não era seu filho? A história geral desconhece Dario, o medo; o rei persa que tomou Babilônia foi Ciro.

            O relato igualmente alerta para a variedade de prismas sob os quais a história humana, e as nossas histórias individuais, podem ser olhadas.  É importante comentar que o fato de existirem óticas diversas não implica em exclusão mútua, como se apenas uma visão fosse o retrato acabado e completo da realidade. Diversas visões implicam sim, em riqueza de acontecimentos e em complementariedade entre eles.

            Babilônia já existia quando Hamurabi, um dos primeiros grandes legisladores, reinou, no século XVII a.c.. Passou por altos e baixos, sendo Nabucodonozor II seu último grande rei. Ele sitiou Jerusalém e, em duas ocasiões, promoveu uma deportação maciça das elites judaicas para a Babilônia. Baltazar, que aparentemente não tinha direito ao título de rei, foi governante em uma época de decadência.

            O texto traz algumas informações a respeito dos personagens envolvidos:
-  A festa promovida pelo rei contava com um grande número de convidados (pelo menos 1000 dignatários, fora as concubinas) e de bebida. (v. 1)
-  A decisão de Baltazar foi tomada estando ele "sob o influxo do vinho", após ele ter "bebido vinho diante desses mil", o que sugere, no mínimo embriaguez. (v. 2)
-  Aparentemente, apenas Baltazar preocupou-se com o escrito miraculoso na parede, que estava facilmente visível aos convidados. (v. 5)
-  Ele perdeu o controle sobre si (ficou apavorado): empalideceu, não sabia o que pensar, perdeu as forças e pôs-se a tremer, chamando os sábios aos berros. (v. 6 e 7)
-  Curiosamente, parece que os convidados estavam mais preocupados com o bem estar real que com o milagre. (v. 8 e 9) Pode-se supor que a consciência deles estava bem mais adormecida que a do seu senhor.

            E qual o pecado, que foi tão duramente punido?

            O primeiro: cegueira frente a história. Baltazar conhecia o relato do capítulo 5 (v. 18-22), mas não o levou em conta, na hora de escolher e adotar os princípios morais pelos quais agiria. Quem sabe, tomou a interpretação do seu nome (Bel-shar-uçur,  "Bel proteja o rei") como um privilégio do qual era merecedor (seu deus, Bel, era seu servo), e não uma dádiva, pela qual deveria ser grato. A humilhação de Nabucodonozor não lhe abriu os olhos para o fato de que, maior que o poder real, era o um Deus que ele nem conhecia. Se Nabucodonozor II, conquistador de Jerusalém, que matava e deixava viver segundo seu próprio juízo, foi transformando em animal, o que poderia se suceder a ele, Baltazar, seguramente um governante bem menor?

            Segundo: desrespeito para com as coisas sagradas. Baltazar ordena que os utensílios separados para o culto em Jerusalém fossem utilizados como copos para ele e seus convidados se embriagarem, em um desprezo óbvio pelo significado dos objetos. Daniel traduz o comportamento deles como desafio: "tu te levantaste contra o Senhor do céu" (v. 23). Não foram os utensílios sagrados que foram profanados, mas Aquele a quem serviam.

            Terceiro: idolatria e cegueira espiritual. O versículo 23, em sua parte final, resume bem: "...mas o Deus que detém teu respiro entre suas mãos e de quem dependem todos os teus caminhos, tu não o glorificaste!" Ele poderia desconhecer o que Iahweh dissera por intermédio do profeta Isaías, cerca de 200 anos antes: "Eu sou Iahvweh; este é o meu nome! Não cederei a outrem a minha glória, nem a minha honra aos ídolos" (Is 42.8). Mas não desconhecia a história de "seu pai". Usando da linguagem teológica, Baltazar talvez não conhecesse a revelação sobrenatural, mas conhecia a natural. Paulo comenta sobre essa situação na carta à igreja em Roma: "Sua realidade invisível... tornou-se inteligível, desde a criação do mundo, através das criaturas, de sorte que não têm desculpa. Pois tendo conhecido a Deus, não o honraram como Deus nem lhe renderam graças... tornaram-se tolos e trocaram a glória do Deus incorruptível por imagens do homem corruptível" (Rm 1.20-22).

            Na verdade, os três pecados formam um roteiro tão lógico, que mais parecem ser um só, numa cadeia de causas e consequências.

            O juízo vem pesado. Baltazar foi avaliado, diretamente e indiretamente. Diretamente, pela sua conduta individual, já que sua atitude no festim não deve ter sido exceção, mas sim regra. O álcool, quando muito, eliminou o resto de censura que poderia existir. Portanto, "foste achado deficiente". Indiretamente, seu reino "foi medido e (Deus) deu-lhe fim". A história mais uma vez se repetiria em ciclos: um império cairia pelas mãos doutro, mais competente no momento:"seu reino foi dividido e entregue aos medos e aos persas". Curiosamente, os motivos espirituais das quedas de Israel e Judá foram bem semelhantes...

            A história geral nos dá duas informações extras, que nos auxiliam a compor um quadro maior. A população aclamou o conquistador como libertador e, se houve resistência, essa deve ter sido débil. O tecido social estava frouxo, e a incompetência política-administrativa de Baltazar foi um dos lados que levaram a sua queda. Paralelamente, houve um juízo divino severo. A história geral nos informa a respeito das causas acessíveis por meio de métodos organizados; o escritor sagrado, a respeito das causas acessíveis somente pela Revelação.



publicado originalmente em http://crerpensar.blogspot.com.br/2008/09/mane-mane-tecel-parsin.html, 01/09/08

quinta-feira, 7 de abril de 2016

A dúvida de Tomé

Eduardo Ribeiro Mundim


(Jo 20.19-29)

            "Porque viste, creste? Felizes os que não viram, e creram". As palavras de Jesus a Tomé ecoam desde aquela época até os dias de hoje. Todo esse incidente nos fala de dúvida. E Dídimo não foi o único a duvidar. Passou à história de modo injusto, como se fosse o único incrédulo dentre os onze, quando apenas expressou de modo claro o que, na verdade, todos os discípulos pensavam em segredo: será verdade? O que prova que Ele ressuscitou? A passagem paralela em Lucas deixa claro o que a de João apenas cita: Jesus provou sua corporalidade a todos os apóstolos.

            Vamos rever os fatos, em conjunto com Lc 24.36-42:
1.    Jesus se apresenta aos discípulos reunidos
2.    Eles temiam os judeus (provavelmente as portas estavam trancadas e as janelas cerradas)
3.    Eles se assustaram com a súbita aparição de Jesus
4.    O confundiram com um "fantasma"
5.    Jesus insiste que o apalpem e o vejam, atestando o fato da ressurreição
6.    Ele os comissiona
7.    A dúvida de Tomé
8.    O novo encontro e a confissão de Tomé

            Esse momento, somado aos demais encontros pós-crucificação, é vital para a história da salvação. É necessário que a ressurreição seja fato histórico, incontestável. Ela não pode ser uma metáfora, ou um sonho, mas uma realidade visível, ainda que somente pela fé, para os que não O viram. Paulo demonstra a questão quando escreve à igreja em Corinto (I Co 15):
1.    A ressurreição de Cristo é garantia de que nossos pecados estão perdoados
2.    Ela também garante que ressuscitaremos, ou seja, de que nosso destino final não é a morte
3.    Portanto, se Jesus não ressuscitou, não há pecado perdoado nem morte vencida
4.    Se não há ressurreição, todo o Evangelho é uma ilusão, sendo melhor "curtir a vida" que "perdê-la" por um sonho absurdo

            Os apóstolos e os primeiros discípulos serão os únicos a conviver com quem esteve morto mas reviveu em definitivo[1], estando hoje na presença de Deus Pai. Os demais cristãos terão de aceitar o fato pela fé, ou seja, sem provas, no espírito de Hebreus: "fé é ... a prova de que existem coisas que não vemos" (Hb 11.1, tradução na Linguagem de Hoje - SBB).

            Durante seu ministério, Jesus enfrentou questionamentos acerca de sua autoridade e identidade. Apesar de todos os milagres e prodígios que já executara, certa ocasião foi-lhe requisitado que provasse sua messianidade. Respondeu que o único sinal que daria seria a sua morte e sua ressurreição. Os evangelhos não registram nenhum contato pós-crucificação entre Ele e aqueles que se postavam como seus inimigos. O sinal de Jonas teria de ser aceito por eles, através da fé...

            Noutro momento Ele frisa a importância da certeza de que as Escrituras são a Revelação do Pai. Narra a parábola do rico e de Lázaro. Aquele solicita a Abraão que permita ao último retornar ao mundo dos vivos, a fim de avisar seus parentes e amigos dos riscos que corriam pela vida que levavam. Afinal, o testemunho de alguém que ressuscitasse seria levado a sério. Abraão é taxativo: os vivos têm a Revelação escrita (Moisés e os profetas). Se não creem nela (pela fé), não crerão em nenhum tipo de testemunho.

            A parábola coloca que a questão não é de evidência externa, ou científica; é de evidência interna, íntima- aquilo que estamos dispostos, ou não, a acreditar. Por isso foi mais conveniente às autoridades subornarem os guardas para espalharem que o corpo de Cristo tinha sido roubado (Mt 28.11-15). Igualmente, foi mais fácil ao Faraó "endurecer seu coração" a acreditar no Deus de seus escravos. Dados científicos dizem "o conjunto dos dados disponíveis torna altamente provável que isso ou aquilo seja verdadeiro", validando o "é possível", ou dizem: "o conjunto dos dados disponíveis torna altamente improvável que isso ou aquilo seja verdadeiro". Ou seja, nada provam; apenas embasam.

            O que nos torna cristãos é, na verdade, a ação do Espírito em nós, convencendo-nos de nossa distância dos propósitos do Criador (ainda que tenhamos aspectos bons), do nosso estado de perpétua rebeldia (ainda que, eventualmente, nos submetamos) e da intermediação que a morte e a ressurreição fazem entre o Pai e nós, de modo que somos aceitos, mesmo que inadequados e desobedientes (ainda que não compreendamos por que as coisas são assim).

            O que nos torna cristãos é, na verdade, uma aceitação dos fatos acima por evidência íntima, não porque temos convicção que alguém ressuscitou dos mortos. A partir da convicção "do pecado, da justiça e do juízo", é que cremos na ressurreição.

            Somos convencidos, ou não, intimamente, pelo somatório de diversos fatores, como, por exemplo: a criação que tivemos, nossa estrutura psicológica, nosso ambiente cultural, a forma como a mensagem do Evangelho foi apresentada, nossas escolhas pessoais e nossa natural resistência à soberania de Deus. Mas, uma vez apresentados a Ele, nada escusa a Sua rejeição permanente[2]. As Escrituras dizem:
"Os céus contam a glória de Deus,
e o firmamento proclama a obra de suas mãos"
(Sl 19.1)
mas,
"Diz o insensato no seu coração:
'Deus não existe!
'" (Sl 14.1)

            É curioso que a metáfora de Paulo sobre o Reino ("agora vemos em espelho e de maneira confusa" - I Co 13.12a) é perfeitamente aplicada à ciência. Ela apenas nos dá um vislumbre das possibilidades, não uma certeza absoluta. Aliás, em termos científicos, o que é supostamente verdade hoje, deixa de sê-lo amanhã.

            Portanto, cremos porque o nosso coração se inclina para crer, não porque nossa razão nos obriga (ainda que uma compreensão racional da fé seja necessária para um crescimento espiritual saudável).

            "Felizes os que não viram, e creram".




[1]  já que todos os ressuscitados por Jesus, ou pelos apóstolos em Atos, morreram posteriormente
[2] uma interpretação comum do significado da expressão "pecado contra o Espírito Santo" é


publicado originalmente em 29/08/08 em http://crerpensar.blogspot.com.br/2008/08/dvida-de-tom.html

quinta-feira, 31 de março de 2016

O Valor da Falta

Eduardo Ribeiro Mundim


Anteriormente, levantei, brevemente, a questão da falta e o jardim do Éden. Agora, desejo aprofundar um pouco mais no tema.


Deve-se ter cuidado para não transportar às Escrituras o modelo psicanalítico, de qualquer escola. Os personagens bíblicos não têm dados biográficos suficientes (com raras exceções) para qualquer interpretação que pretenda ser respeitável. Contudo, alguns conceitos podem, acredito, ser explorados pelas páginas sagradas.


Um destes é o da falta. O ser humano é descrito pelos freudianos como um "ser em falta", "um ser construído em torno de uma falta". Seu maior modelo neste ponto é o complexo de castração. Sumariamente, o efeito produzido na criança ao perceber a diferença entre os sexos, que seja, a presença peniana - e, portanto, a possibilidade de perder o órgão, para uns, e o fato de nunca tê-lo tido, para outros.


Tradicionalmente, a falta é descrita como algo de contorno negativo, ainda que seja a mola mestra de todo processo criativo humano. Apesar disto, continua sendo um fato a lamentar e a desejar um dia em que não mais exista.


Biblicamente, a falta pode ser rastreada na queda do primeiro casal. A falta, ao menos no seu sentido negativo, teria surgido neste momento, quando Adão e Eva são expulsos do Paraíso, do lugar da perfeição.


Minha hipótese é de que a falta faz parte dos planos do Criador desde o primeiro momento, e que a rejeição desta característica deu à luz ao primeiro pecado humano.


A descrição do Jardim é de um mundo perfeito, onde o homem, representado pelo primeiro casal, tornar-se mordomo do Criador, seu representante junto aos demais seres criados. Seu poder é tremendo: guardar, nomear, subjugar e sujeitar. E para esta tarefa, é deixado sozinho, e o autor de Gênesis não faz referência a nenhum "manual do fabricante". Parece que nomear, subjugar e sujeitar eram processos que eles aprenderiam fazendo.


Parece ser correto deduzir que Deus se ausentava do Éden, mas que nele passeava ao final do dia 1. O texto não diz que o Criador passava para "tomar satisfação", ou "fazer auditoria", ou "avaliar o trabalho desenvolvido". Diz que ele "passeava"; atividade de quem está tranquilo, relaxado, despreocupado - provavelmente, confiante na capacidade dos seus representantes desempenharem a tarefa solicitada.


Usando o referencial psicanalítico, e supondo ser legítimo aplicá-lo a uma época tão arcaica, a convivência tão íntima entre Criador e criatura marcava uma diferença radical. Ela não era Ele! E isto não era fator negativo, não era uma falha na criação, alvo de 7 avaliações do seu autor como "...e viu Deus que era bom". O reconhecimento da diferença era fator constitutivo do casal e, supostamente, dos seus descendentes.


O fruto da árvore da vida nada mais era que o marco simbólico desta diferença. E como observou Rubem Alves 2, símbolo é aquilo que se inscreve na ausência de alguma coisa.


Naquela época primeva, o símbolo não marcava um fato negativo, marcava uma diferença constitutiva, relatava um fato, e punha uma escolha diária: o não comer reafirmava o caráter divino do casal, a aceitação da desigualdade como marca da perfeição. Digo que reafirmava o caráter divino porque este foi-lhe dado a partir do momento que fora criado "segundo a imagem e semelhança" de Deus que é Trino e Uno. Um Deus que é Uno numa coletividade de Três Pessoas que se revelam de modo diferente, através de funções diferentes. Cada dia em que se mantiam longa da árvore, reafirmavam sua aceitação de um mundo perfeito que integrava a falta na sua perfeição.


A rejeição se deu no momento em que decidiram não mais aceitar a falta como algo intrinsecamente bom, mas como algo a ser rejeitado ("sereis como Deus, conhecedores do bem e do mal"), algo que os promoveria de categoria dentro da Criação.


A partir daí a falta tornou-se sinônimo de separação, de falha constitutiva e não de diferença constitutiva, com todas as consequências de milhares de anos de história puramente humana.



1 Gn 3.8

2 Alves R O que é religião, Editora Brasiliense