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quinta-feira, 31 de março de 2016

Homofobia e o Pecado de Todos Nós

Eduardo Ribeiro Mundim

Recentemente li um artigo sobre a homofobia na Folha de São Paulo. Chamou-me a atenção a linha de raciocínio adotada por quem o escreveu: na década de 40, a liberação do voto foi vista como prenúncio de uma catástrofe, e a lei do divórcio, idem. A conclusão foi de que todo o barulho realizado por fiéis evangélicos contra a chamada "lei da homofobia" teria destino igual: um sereno esquecimento.

Para uns, a lei evita que os homossexuais sejam discriminados sob qualquer forma; para outros, é um atentado à liberdade de expressão. Talvez ambos estejam certos...

Alguns articulistas evangélicos adotam termos que fazem pensar em uma guerra aberta contra um segmento homossexual específico. "Gaynazismo" é um deles; existem outros que não me parecem adequados para uma página escrita por um cristão.

Por outro lado, alguns segmentos homossexuais parecem querer realmente impor um paradigma a todos, cometendo o mesmo erro que eles denunciam. Padrão que parece ser construído sobre a noção que não há barreiras para a atividade sexual, desde que ela seja previamente acertada entre os envolvidos. Publicamente negam que tal acordo possa envolver menores de idade.

Penso que a lei tenha como alvo sermões que usem termos pejorativos contra a comunidade homossexual, ou que, contrariando as Escrituras, coloquem a atividade homossexual como o maior de todos os pecados; ou, novamente contrariando as Escrituras, a coloquem como exemplo máximo da perversão do ser humano não redimido; ou, pior ainda, deturpando-as, coloquem o alvo da evangelização o cessar da atividade homossexual, e não a confissão do Senhorio de Jesus com toda a adequação ética conseqüente.

Como cristão, de confissão evangélica, pergunto-me às vezes se não aspiramos um governo evangélico de cunho totalitário, onde todos seriam submetidos, querendo ou não, a um governo civil imposto, alicerçado sobre uma hermenêutica determinada. Uma imitação barata dos novos céus e terra que não construiremos, mas que ganharemos como presente, pronto e acabado, vindo das mãos de Deus.

Pergunto-me onde estamos, enquanto evangélicos,
o na luta contra as mortes no trânsito? (quem apoiou publicamente a "lei seca" - excetuando a parte inconstitucional de querer obrigar alguém a produzir provas contra si mesmo);
o na moralidade da vida pública? (talvez Marina Silva seja um dos poucos políticos evangélicos que não nos envergonhem);
o na luta contra o infanticídio indígena? (onde está a mobilização dos políticos que muitas vezes são chamados a ocupar os púlpitos em época eleitoral?)
o na luta pela redução da desigualdade social via desenvolvimento real e não através de medidas paliativas isoladas?

Questiono-me se quando denunciamos o pecado da homossexualidade também denunciamos o da mentira (por exemplo, jeitinhos na declaração do imposto de renda), do roubo (um jeitinho de reduzir ardilosamente a carga horária mantendo o salário), da deslealdade, da violência (durante quanto tempo apoiamos a ditadura militar com todos os seus excessos, justificados pela busca do "bem maior"?)...

Indago-me se estou pronto a aceitar o diferente em minha comunidade de fé, com todos os seus defeitos, até que o Espírito Santo complete a Sua obra nessa "vida diferente"? indago-me se esqueço do conselho paulino "aquele que está em pé, cuide para que não caia"; indago-me se me recuso a escutar Dietrich Bonhoeffer, que nos avisa "quando consideramos o pecado do outro maior que o nosso, estamos longe de conhecer no nosso pecado"? indago-me se meu coração não está endurecido, a ponto de considerar o próximo "o diferente", quando, na verdade, eu é que careço da misericórdia de Deus? indago-me se não nos esquecemos que estamos todos irmanados pelo pecado que cometemos e pela possibilidade de cometer qualquer um? indago-me se o único jeito de trabalhar pelo Reino é aquele que estamos acostumados a trabalhar...

publicado originalmente, 30/07/08, http://crerpensar.blogspot.com.br/2008/07/homofobia-e-o-pecado-de-todos-ns.html

segunda-feira, 28 de março de 2016

Por que te calas?

Eduardo Ribeiro Mundim

Há um ano a chamada Lei Muwaji (projeto de lei 1057/2007 - http://crerpensar.blogspot.com/2008/07/lei-muwaji.html) foi proposta pelo Deputado Henrique Afonso, do PT acriano. Até agora aguarda o parecer da relatora, Deputada Janete Pieta, do mesmo partido, de São Paulo. No dia 05 de setembro de 2007 foi realizada uma audiência pública para discutir o assunto. E pronto.

Recentemente, um panelaço foi efetuado em frente a residência da relatora, para lembrá-la no projeto que dorme em sua gaveta.

A causa não diz respeito a Igreja, seja ela de matiz católico ou evangélico; não diz respeito ao espiritismo; não diz respeito a nenhuma religião específica. Diz respeito a qualquer um enquanto ser humano. Contudo, este blog parte da premissa cristã evangélica e falo enquanto um cristão evangélico. Portanto, pergunto: por que te calas?
- Pergunto ao Deputado Lincoln Portela, PR - MG, pastor (salvo engano) evangélico e radialista, proveniente de Belo Horizonte, membro da mesma Comissão da Deputada Janete;
- Pergunto ao Deputado Pastor Manoel Ferreira, PTB - RJ, pastor e advogado, membro da mesma Comissão;
- Pergunto ao Deputado Gilmar Machado, PT- MG, em quem votei na última eleição;
- Pergunto a cada deputado da assim chamada "bancada evangélica";
- Pergunto ao CIMI, chamado a se pronunciar pelo ex-presidente da FUNAI, antropólogo Mércio Gomes (http://merciogomes.blogspot.com/2008/07/funai-reage-ao-filme-sobre-infanticdio.html) sobre o filme Hakani (www.hakani.org.br);
- Pergunto ao CIMI se sua opinião oficial é a expressa na sua página na internete, http://www.cimi.org.br/?system=news&action=read&id=2756&eid=259 - quando digitada a pergunta infanticídio, é a única resposta que aparece.

Enviei correio-eletrônico a todos os deputados federais, um a um; recebi alguns poucos retornos de mensagem não entregue; alguns poucos retorno robotizados; alguns poucos retornos de assessores; apenas um deputado afirma ter feito pronunciamento em plenário (http://www.barbosanetoparana.com.br/discursos/default.asp?nrseq=121).

Não digo que o projeto de lei seja perfeito. Digo que é covardia não discutir o assunto, e deixá-lo mofando no fundo de uma gaveta; digo que é incongruente votar contra o aborto e se calar quanto ao infanticídio; digo que é pecaminoso se omitir frente a questões de vida e morte.

publicado originalmente em http://crerpensar.blogspot.com.br/2008/07/por-que-te-calas.html, 11/07/08